Por que os corações gritam por relacionamentos mais saudáveis?

Qual o estado de seu relacionamento amoroso: líquido ou sólido?

O sociólogo Zygmunt Bauman estabeleceu o conceito básico sobre a “modernidade líquida“. É desta maneira que ele nomeia a era que vivemos, esclarecendo que os momentos são “líquidos” pois tudo se altera muito velozmente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Isso gera como consequências a compulsão pela construção do corpo ideal, a adoração às “celebridades” do momento, o consumismo compulsivo que leva a endividamento, a extrema preocupação com a fragilidade emocional que leva à insegurança e, nesse mundo de incertezas, a fragilização e instabilidade dos relacionamentos submetidos a constantes conflitos.

Como se fosse uma disputa em busca de razões, o relacionamento amoroso, assim como a maioria dos outros tipos de relacionamentos, também se contaminou com a transitoriedade dessa sistemática consumista, onde um simples deslizar de uma tela no Tinder já faz a fila andar. E assim perde-se a paz, e a precocidade dos rompimentos deixa uma legião de corações feridos.

O Papa Francisco, numa de suas Audiências, salientou que “vivemos nossas relações de amor sempre sob o signo de nossos limites e também de nosso egoísmo”, e por esse motivo nossas relações “são frequentemente poluídas por desejos de posse ou manipulação do outro”.

O Santo Padre se refere à superficialidade que rege grande parte dos relacionamentos, referindo-se ao Profeta Oseias:  “Vosso amor é como a nuvem da manhã, como o orvalho que logo se dissipa”. Essa concepção, diz o Papa, mostra de maneira poética mas real a “congênita fraqueza de nosso amor”. Ele continua: “Aqui está o que o nosso amor é muitas vezes: uma promessa que se esforça para permanecer, uma tentativa que logo seca e evapora, um pouco como quando o sol sai de manhã e faz desaparecer o orvalho da noite.”

Retratando a falta de comprometimento, a ausência de empenho para manter uma relação de forma saudável e duradora, conclui: “Quantas vezes nós, homens, amamos desta maneira tão fraca e intermitente. Todos temos experiência disso: amamos, mas depois aquele amor acabou ou ficou fraco. Desejosos de querer bem, nos deparamos com nossos limites, com a pobreza de nossas forças: incapazes de manter uma promessa que nos dias de graça parecia fácil de cumprir.”

Num relacionamento sincero, pode-se descobrir muito mais do que o amor pelo outro

Os relacionamentos deveriam ser vivenciados como uma grande oportunidade para cada um conhecer a si mesmo e libertar-se de bloqueios que estão dificultando a vida. Numa relação profunda entre duas pessoas, passa a existir cada vez maior liberdade, maior intimidade de sentimentos. Isso possibilita, com o passar do tempo, que as projeções que colocamos no outro comecem a aparecer aos nossos olhos como um reflexo do que somos e não tínhamos percebido ainda.

O surgimento de desavenças e a ocorrência de conflito de opiniões são fatores que podem, aos poucos, ir burilando cada um. Dentro do razoável, enquanto houver disposição e a convivência não expuser ninguém a constrangimentos e riscos, ou mesmo, se for necessário, procurar ajuda profissional, é interessante encontrar alguma forma para resolver pacificamente a situação, pois não podemos esquecer que se fugirmos de um conflito trocando o parceiro, com toda a certeza a questão que levou ao conflito reaparecerá com os substitutos.

“O que não enfrentamos em nós mesmos acabaremos encontrando como destino.” (Carl Jung)

Porém, do jeito que o mundo está girando, no modo “cada um por si”, com a pressa para atingir a “felicidade de Instagram”, não dá tempo para que esse processo ocorra. Não deveríamos desperdiçar de forma corriqueira a oportunidade que um relacionamento oferece.

A distância que começa no coração

Meher Baba foi um guru persa. Quando tinha 19 anos, entrou em contato com uma mestra sufi chamada Hazrat Babajan. Esta mestra sufi lhe deu um beijo no rosto, e este fato marcou o início de sua ascendência espiritual. Em seus ensinamentos encontramos uma relevante passagem onde ele questiona o porquê da agressividade nos relacionamentos, e explica como evitarmos esses conflitos. Acompanhe no texto que segue:

“Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta a seus discípulos:

– Por que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?

– Gritamos porque perdemos a calma, disse um deles.

– Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?, questionou novamente o pensador.

– Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, retrucou outro discípulo.

E o mestre volta a perguntar:

– Então não é possível falar-lhe em voz baixa?

Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu:

– Vocês sabem porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecido? O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito. Para cobrir essa distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente.

– Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, através da grande distância. Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas?

– Elas não gritam. Falam suavemente. E por quê? Porque seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes estão tão próximos seus corações, que nem falam, somente sussurram.

– E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer sussurrar, apenas se olham, e basta. Seus corações se entendem. É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas.

Por fim, o pensador conclui, dizendo:

– Quando vocês discutirem, não deixem que seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta.”

Meditemos sobre ensinamentos tão expressivos de figuras iluminadas.

Que possamos nos conscientizar de nossos limites, enriquecer nossas forças para manter-nos fiéis a nós mesmos e, assim, entender que da forma como nos relacionamos conosco, nos relacionaremos com os outros.

Conquiste-se com amor e carinho.

 

José Batista de Carvalho

 

fontes:

http://www.momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=3363&let=&stat=0 (citação M. Baba)

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-02/papa-francisco-audiencia-geral-20-fevereiro-2019-pai-nosso.html

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