Freud na terra encantada do Rei Momo

Quando Ego sai para brincar no carnaval

Reencontrei um excelente texto sobre carnaval e psique do mestre Freud, justamente neste dias de Momo.

Aproveitei os dias de carnaval para dar uma arrumada nos guardados e nos livros – que parece, em alguns momentos, ganharem vida própria e se espalharem para longe de seu lugar – e nesta tarefa fui recolhendo perdidos e achados em toda casa até que encontrei o livro A face oculta – inusitadas e reveladoras histórias da medicina de Moacyr Scliar, que reúne várias colunas por ele escritas no jornal Zero Hora de Porto Alegre.

Em determinada página, sob o título “Freud e o Carnaval”, temos uma explicação divertida e esclarecedora sobre como funciona nossa psique sob a ótica de Freud e como essa estrutura se comportaria no carnaval:

“Segundo Freud, que não era construtor (mas que em algum momento deve ter pensado em fazer uma incorporação a preço de custo para escapar das agruras da psicanálise), a nossa mente é como uma casa em que vivem três habitantes. No térreo mora um sujeito simples e meio atocaiado chamado Ego. Ele não é propriamente o dono da casa, mas cabe-lhe pagar a luz, a água, o IPTU, além de varrer o chão, lavar a roupa e cozinhar. Estas tarefas fazendo parte da vida cotidiana, Ego até não se queixaria. O pior é ter de conviver com os outros dois moradores.

No andar superior, decorado em estilo austero, com estátuas de grandes vultos da humanidade e prateleiras cheias de livros sobre leis e moral, vive um irascível senhor chamado Superego. Aposentado – aos pregadores de moral não resta muito a fazer em nosso mundo -, Superego dedica todos os seus esforços a uma única causa: controlar o pobre Ego. Quando Ego se lembra de alguma piada boa e ri, ou quando Ego se atreve a cantar um sambinha, Superego bate no chão com o cetro que carrega sempre exigindo silêncio. Se Ego resolve trazer para casa uma namorada ou mesmo uns amigos, Superego, de sua janela, adverte: não quer festinhas no domicílio.

No porão, sujíssimo, mora o terceiro habitante da casa, um troglodita conhecido como Id. O Id não tem modos, não tem cultura e na verdade mal sabe falar. Em matéria de sexo, porém, tem um apetite invejável. Superego, que detesta estas coisas, exige que Ego mantenha a inconveniente criatura sempre presa. E é o que acontece durante todo o ano.

No Carnaval, porém Id se solta. Arromba a porta do porão, salta para fora e vai para a folia, arrastando consigo o perplexo Ego que, num primeiro momento, resiste, mas depois acaba aderindo. E aí são três dias de samba, bebida, mulheres.

Quando volta para casa, na quarta-feira, a primeira pessoa que Ego vê é Superego, olhando-o fixo da janela no andar superior. Ele não precisa dizer nada, Ego sabe que errou. Humilde, enfia-se em casa, abre a porta do porão para que o saciado Id retorne a seu reduto, e aí começa a penitência que durará exatamente um ano.

De vez em quando Ego tem um sonho. Ele sonha que os três fazem parte de um mesmo bloco carnavalesco, e que, juntos, se divertem a valer – o Superego é inclusive o folião mais animado.

Mas isto é, naturalmente, sonho. Parafraseando um provérbio judaico, Carnaval no sonho não é Carnaval é só sonho. Que se junta a todos os sonhos frustrados de nossa época. Graças a eles, muitas casas foram construídas, e muitos edifícios foram incorporados.”

Como vemos, esta festa que vem dos primórdios da humanidade tem como marca despertar o Id escondido em nossos porões, rebeldia esta que traz como consequência uma maior repressão pelo Superego e assim dificultando ainda mais a vida do Sr. Ego.

O sonho do Ego em poder compartilhar da alegria e espontaneidade com seus dois vizinhos certamente expressa o desejo da interação de todas as suas estruturas fazendo surgir um novo ser, o Ser Integral, aquele que pode transformar o mundo em um lugar de Paz e Plenitude.

 

José Batista de Carvalho

 

SCLIAR, Moacyr. A face oculta – inusitadas e reveladoras histórias da medicina. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2001.

http://www.moacyrscliar.com/

 

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