O Universo é o Sonho de um Sonhador Infinito

 

Para ler Fernando Pessoa

Ao ler O Universo é o Sonho de um Sonhador Infinito, de Fernando Pessoa, impossível ficar insensível à beleza e grandiosidade de imagens, ideias e conhecimento que nos são transmitidas.

Ao descrever o Universo, podemos nos encontrar na trama da criação como o infinito espírito que em nós habita, e que também é agente da criação do Universo em que vivemos.

Quando observamos a linguagem poética de Fernando Pessoa, notamos como ele conseguia revestir o conhecimento de beleza e, assim, fazer com que o conhecimento se torne atemporal. Uma coisa é descrever um fato. Outra é expressá-lo embalado com beleza transmitindo a isso um caráter de imortalidade, sendo a poesia uma maravilhosa maneira de tirar o conhecimento do tempo e projetá-lo para algo atemporal.

Fernando Pessoa conhecia totalmente a gramática da poesia, entendia os seus elementos e envolvimentos. Como poucos conseguia abrir o livro da natureza, o livro da vida, e lê-lo como quem tivesse auxiliado na escrita, tamanha sua intimidade no sentir o sentido do viver.

Como ponto de reunião de uma humanidade que era só dele, em si entendeu de forma lírica o nosso interior que se desenvolve como um universo do qual o conhecemos por nossas sensações.

Para atingir esse entendimento utilizou-se dos versos para perfurar a resistência do ser humano e assim, através da beleza, elevar toda a humanidade, que apenas pode perceber o que passa pelos nossos sentidos, ou seja, aquilo que experimentamos. Só isso é aquilo que podemos dizer que conhecemos. Fora isso, é fruto de concepção, imaginação, fruto do conhecimento e inteligência, ou fantasia, onírica realidade da criatividade ou fluida fonte de inspiração da intuição.

O imaginado, concebido ou apenas observado Universo, longe daquilo que cremos, segue rigorosos caminhos preconcebidos por perfeição divina de leis eternas.

Por imenso que é, escapa de nossas percepções. Assim, em nossa percepção, torna-se um comum conceito idealizado de nosso humano espírito.

Por o percebermos em sua parte próxima, aquela que tocamos – o chão que pisamos, o ar respirado, essa luz que mostra como somos, aquilo que em nossos sentidos aflora – diz-nos que é real e objetivo.

Como uma realização, o universo é a ideia de um infinito espírito, único que pode sonhar de modo a criar. O universo é o sonho de um sonhador infinito e onipotente.

Sendo parte deste universo, desse infinito espírito, neste e em todos os instantes existe ele em nós, criou-nos. Somos distintos e indistintos dele.

A “Causa Imanente”, como é definida, tem que, ao criar, criar infinitamente. Em si mesma é infinita, nos seres é infinita.

Sendo a Causa infinita, o que cria é assim infinito também.

É assim que devemos ler O Universo é o Sonho de um Sonhador Infinito.

 

José Batista de Carvalho

 

texto baseado em palestra da professora Lúcia Helena Galvão, Nova Acrópole

 

O Universo é o Sonho de um Sonhador Infinito

 

Não conhecemos senão as nossas sensações. O universo é pois um simples conceito nosso.

O universo porém – ao contrário de e em contraste com as nossas fantasias e os nossos sonhos – revela, ao ser examinado, que tem uma ordem, que é regido por regras sem exceção a que chamamos leis.

À parte isso, o universo, ou grande parte dele, é um “conceito” comum a todos os que são constituídos como nós: isto é, é um conceito do espírito humano.

O universo é considerado objetivo, real – por isso e pela própria constituição dos nossos sentidos.

Como objetivo, o universo é pois o conceito de um espírito infinito, único que pode sonhar de modo a criar. O universo é o sonho de um sonhador infinito e onipotente.

Como cada um de nós, ao vê-lo, ouvi-lo, etc., cria o universo, esse espírito infinito existe em todos nós.

Como cada um de nós é parte do universo, esse espírito infinito, ao mesmo tempo que existe em nós, cria-nos a nós. Somos distintos e indistintos dele.

A “Causa Imanente”, como é definida, tem que, ao criar, criar infinitamente. Em si mesma é infinita como uma, extra-numericamente; nos seres é infinita como inúmera, numericamente. Num caso é o indivisível, no outro infinitamente divisível. As almas são pois em número infinito.

Tudo o que é criado é infinito, pois a Causa Infinita não pode criar senão infinito. Por isso tudo material, se tudo de natureza oposta à Causa Infinita, é infinitamente divisível e multiplicável (eternidade do tempo, infinidade do espaço). Só pode criar finitos em número infinito. Por isso tudo espiritual, isto é, não-espacial, como é da natureza da Causa, é indivisível. É portanto imortal.

 

Fernando Pessoa

 

fonte – Arquivo Pessoa – Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968.


Categorias:Autoconhecimento, Reflexão

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