Será que alguém nasce já pronto para a vida?

Como seria nascer já sabendo tudo o que precisamos para a vida?

O que você acharia se já tivesse nascido prontinho, sabendo tudo o que precisa para viver, sem ter que aprender apanhando da vida, sem ter que ficar se levantando depois de cada tombo, sem ficar levando susto a cada virada de esquina da existência?

Uau, seria ótimo, não é mesmo? Amar do melhor jeito possível, trabalhar com a máxima perfeição, ser pais primorosos, filhos perfeitos, amigos maravilhosos.

Seria o paraíso na Terra, a utopia realizada. Sim, seria maravilhoso, nada daria errado. Pensando melhor, será que alguma coisa poderia dar errado?

Bem, vamos então expandir a nossa mente e antes de concluirmos que a vida como foi concebida poderia ser um magistral erro, vamos perguntar: “O que poderia dar errado nesse admirável mundo perfeito?”

Quem pode nos responder, de forma bem-humorada, é Mario Sergio Cortella, filósofo e escritor brasileiro, que aborda as questões filosóficas num contexto de contemporaneidade. Acompanhe este trecho do seu livro Não nascemos prontos.

Temos que evitar o risco de cair na monotonia existencial.

“O sempre surpreendente Guimarães Rosa dizia: “O animal satisfeito dorme”. Por trás dessa aparente obviedade está um dos mais profundos alertas contra o risco de cairmos na monotonia existencial, na redundância afetiva e na indigência intelectual. O que o escritor tão bem percebeu é que a condição humana perde substância e energia vital toda vez que se sente plenamente confortável com a maneira como as coisas já estão, rendendo-se à sedução do repouso e imobilizando-se na acomodação.

A advertência é preciosa: não esquecer que a satisfação conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento. A satisfação acalma, limita, amortece.

‘Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar.’

Por isso, quando alguém diz “Fiquei muito satisfeito com você” ou “Estou muito satisfeita com seu trabalho”, é assustador. O que se quer dizer com isso? Que nada mais de mim se deseja? Que o ponto atual é meu limite e, portanto, minha possibilidade? Que de mim nada mais além se pode esperar? Que está bom como está? Assim seria apavorante; passaria a ideia de que desse jeito já basta. Ora, o agradável é alguém dizer “seu trabalho (ou carinho, ou comida, ou aula, ou texto, ou música, etc) é bom, fiquei muito insatisfeito e, portanto, quero mais, quero continuar, quero conhecer outras coisas”.

Um bom filme não é exatamente aquele que, quando termina, nos deixa insatisfeitos, parados, olhando, quietos, para a tela, enquanto passam os letreiros, desejando que não cesse? Um bom livro não é aquele que, quando encerramos a leitura, permanece um pouco apoiado no colo e nos deixa absortos e distantes, pensando que não poderia terminar? Uma boa festa, um bom jogo, um bom passeio, uma boa cerimônia não é aquela que queremos que se prolongue?

Com a vida de cada um e de cada uma também tem de ser assim; afinal de contas, não nascemos prontos e acabados. Ainda bem, pois estar satisfeito consigo mesmo é considerar-se terminado e constrangido ao possível da condição do momento.”

Não nascermos prontos é o que leva a criar, inovar, refazer, modificar.

“Quando crianças (só as crianças?), muitas vezes, diante da tensão provocada por algum desafio que exigia esforço (estudar, treinar, emagrecer, etc), ficávamos preocupados e irritados, sonhando e pensando: “Por que a gente já não nasce pronto, sabendo todas as coisas?” Bela e ingênua perspectiva.

É fundamental não nascermos sabendo nem prontos; o ser que nasce sabendo não terá novidades, só reiterações. Somos seres de insatisfação e precisamos ter nisso alguma dose de ambição; todavia, ambição é diferente de ganância, dado que o ambicioso quer mais e melhor, enquanto que o ganancioso quer só para si próprio.

Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar. Quanto mais se nasce pronto, mais se é refém do que já se sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar.

Gente nasce não-pronta e vai se fazendo.

Diante dessa realidade, é absurdo acreditar na ideia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica; para que alguém quanto mais vivesse, mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando…

Isso não ocorre com gente, mas com fogão, sapato, geladeira. Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo. Eu, no ano 2013, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida) está no meu passado, não no presente.

Demora um pouco para entender tudo isso; aliás, como falou o mesmo Guimarães, ‘não convém fazer escândalo de começo; só aos poucos é que o escuro é claro’…”

Como se preparar, já que não nascemos prontos?

1 –  a disposição deve ser aprender sempre – a energia vital se renova pelo aprendizado, a mente se abre a novas perspectivas

2 – a insatisfação é a matriz da criatividade – é o que nos move para prosseguir, persistir, continuar, criar

3 – apreciar o aprendizado – aprender é estar sempre em contato com novidades, ampliar os horizontes

4 – olhar o aprendizado sob outra perspectiva – utilizar os recursos do aprendizado para construir uma vida gratificante e significativa, com a ambição de buscar o melhor para si e para os outros

“Só sei que nada sei” – supõe-se que tenha sido a reposta de Sócrates quando, no Oráculo de Delfos, teria sido indagado quanto à questão “quem é o homem mais sábio da Grécia?”  pela pitonisa. A frase indicaria que a sabedoria reside em compreender que quanto mais se aprende, mais se tem para descobrir.

Aprenda, descubra, inove, viva.

 

Noemi C. Carvalho

 

 

 


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