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As dramáticas experiências dos médicos na covid-19

Médico com roupa de trabalho usando máscara sentado com a cabeça baixa vivendo os dramas médicos covid-19

Médicos de Harvard contam o que mais ficou marcado na luta contra a covid-19.

Sete médicos, pesquisadores do Broad Institute – um centro de pesquisas médicas, parceiro do MIT e da Universidade Harvard – e professores da Harvard Medical School, deram seus depoimentos sobre o que mais marcou seu trabalho durante o atendimento a pacientes de covid-19: o valor do trabalho em equipe, os avanços da ciência, a fragilidade da vida.

O pico da pandemia passou, mas ficam as lembranças daqueles que enfrentaram o desconhecido vírus. Afinal, além do desgaste, da ansiedade, falta de literatura científica e equipamentos somam-se a dor e o sofrimento presenciado em pacientes e familiares.

Entretanto, mesmo nesse doloroso cenário, algo fica de bom: a união, a solidariedade, o apoio, os avanços nas pesquisas.

Leia abaixo alguns trechos selecionados desses depoimentos.

“Nem mesmo a troca de um sorriso era possível.”

Deb Hung, atua na área de doenças infecciosas e cuidados intensivos. Ela relatou que “o que mais me impressionou, com a experiência de tratamento de pacientes com covid-19, foi como isso era desumanizante”. Hung conta que era comovente ver as pessoas não poderem receber visitas e morrerem sozinhas, sem que os familiares pudessem entrar.

“Eu só conhecia o nome e os parâmetros médicos associados ao paciente. Mas nos dias habituais, conhecemos um pouco mais sobre ele: o lado pessoal e humano, a visita de familiares e amigos”. Além disso, Hung diz que a necessidade de usar máscaras e os equipamentos de proteção criava uma barreira entre médicos e pacientes. Não permitia nem mesmo a troca de um sorriso.

“O que era desafiador, do lado científico, é que todos estavam desesperados para fazer alguma coisa, para tentar qualquer coisa para ajudar os pacientes. Foi louco e frustrante, e de fato todos sentiram uma sensação aguda de desespero.”, continua Hung.

“Todos os profissionais se prontificaram a cuidar dos pacientes de covid-19.”

Michael Gillette trabalha com medicina pulmonar e cuidados intensivos. “Uma coisa que foi surpreendente durante o primeiro surto da pandemia foi o número de pacientes gravemente enfermos em relação à capacidade do hospital.”

Ele relata que no Massachusetts General Hospital atenderam cerca de 180 pacientes que precisavam de cuidados em UTI, e “para colocar esse número em perspectiva, nossa principal unidade de terapia intensiva médica, onde passei a maior parte do meu tempo durante os últimos meses, é uma unidade de 18 leitos.”

Ventiladores convencionais de UTI estavam em falta, não havia o número de médicos de cuidados intensivos pulmonares ou anestesistas necessários, mas “foi extraordinário observar todos os tipos de profissionais se prontificando a cuidar dos pacientes com covid-19, fora de suas funções habituais.

O número de pessoas que trabalharam horas extraordinárias em circunstâncias muito estressantes, lidando com uma doença que ninguém entendia muito bem, em muitos casos atuando fora de sua área de atuação, e o fizeram com uma atitude positiva, foi notável e comovente.”

“Equipes unidas para atender a todas as necessidades.”

Pradeep Natarajan, da área de cardiologia, relata que a “enorme lacuna de conhecimento com a qual os médicos estavam lidando em face da covid-19 “fez com que eles “dependessem muito “da intuição clínica pela experiência com outros processos respiratórios agudos”. Isso os levou a examinar as novas descobertas científicas para, em seguida, aplicá-las imediatamente aos pacientes com covid-19.

“Nenhum dos médicos aprendeu sobre covid-19 na faculdade de medicina. Existem semelhanças com outras doenças respiratórias, mas também existem muitas características únicas.”, afirma Natarajan.

Lidando com uma pandemia que ocorre uma vez a cada século, ele diz sentir orgulho “de meus colegas – enfermeiras, médicos, técnicos e equipe administrativa – unindo-se para atender a todas as necessidades.”

“A rapidez para passar de uma doença leve para risco de vida.”

Marcia Goldberg é infectologista e conta que “o que mais me impressionou com os pacientes foi a rapidez com que eles podem passar de uma doença relativamente leve para uma doença grave e com risco de vida.

Duas coisas que ficam comigo com essa experiência: quando trabalhamos juntos, podemos transformar a saúde em resposta a qualquer ameaça; e como a vida é imprevisível e frágil.

Mesmo interagindo indiretamente com os pacientes, Goldberg ficou impressionada com “a enormidade de seu sofrimento e isolamento”. Ela conclui dizendo que “isso é o que me leva a trabalhar cada vez mais em nossa pesquisa sobre a resposta imunológica ao covid-19”.

“Os verdadeiros heróis são as enfermeiras.”

Anna Greka, especialista em rins, conta que “a coisa mais difícil em cuidar de pacientes com covid-19 era a incapacidade de passar muito tempo com eles. Foi muito estranho não poder tocá-los e me comunicar com eles.

Eu diria que os verdadeiros heróis não celebrados neste caso são as enfermeiras. E em particular, as enfermeiras de diálise, que tinham que estar na sala com EPI completo durante todo o tempo que o procedimento de diálise estava ocorrendo.

Quem já usou o EPI por várias horas sabe que é extremamente quente e muito desconfortável. Como não eram permitidas visitas, as enfermeiras eram a única fonte de conforto para muitos pacientes. As enfermeiras realmente foram além de suas funções, e acho importante que sejam reconhecidas por seus sacrifícios.”

Além disso, Greka relata que a preocupação com a descontaminação para não expor a família a nenhum risco também aumentou muito o estresse. Mas o lado positivo foi ver o esforço entre todos os funcionários, “as pessoas estavam realmente tentando estar lá umas para as outras, e isso ajudou todo mundo a se esforçar e não se sentir sozinho.”

“Precisamos estar preparados para a próxima pandemia.”

Benjamin Gewurz, infectologista, afirma que “precisamos estar mais preparados para a próxima pandemia. Com o aumento das viagens aéreas, crescimento populacional, mudança climática e práticas agrícolas de alto risco, estamos claramente suscetíveis a outra pandemia no futuro próximo, talvez até mesmo com outro tipo de coronavírus.”

No início da pandemia, ele trabalhou como voluntário procurando responder as perguntas de todas as áreas do hospital. Eram dúvidas como quantos testes precisavam ser feitos, como interpretar os resultados ou como fazer a triagem dos pacientes.

“Ver o quão assustador, perigoso e perturbador para a sociedade é um vírus pandêmico – e perceber como éramos impotentes desde o início, sem evidências para orientar as estratégias de tratamento ou recursos para testá-lo adequadamente – foi muito motivador para mim em minha pesquisa sobre o vírus.”, conclui Gewurz.

“Foi assustador ouvir médicos contar como estavam arrasados.”

Roby Bhattacharyya atua na área de doenças infecciosas. “O que é loucura é que isso que infectou o primeiro ser humano menos de seis meses antes era, de repente, a maior parte dos pacientes que estávamos cuidando”, conta Bhattacharyya.

Além disso, ele relembra outro fato marcante: “como foi assustador ouvir de médicos na Itália e na Espanha, depois em Washington, depois na cidade de Nova York sobre como eles estavam arrasados.”

Bhattacharyya cita como foram importantes os avanços na ciência que ocorreram em comparação com o SARS original em 2003. Ele diz que existem ainda muitos desafios em torno da covid-19 e os resultados das pesquisas ainda permanecem “mais limitados do que qualquer um gostaria, mas também houve muito progresso. É fácil perder de vista como essa pandemia teria sido diferente se tivesse acontecido há 15 ou 20 anos.”, conclui.

com informações de The Harvard Gazette, por lan Mochari, Namrata Sengupta, Kelsey Tsipis

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