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Bolhas sociais: um muro invisível que distorce a vida

Montagem fotográfica com o rosto de um homem dentro de uma bolha bolhas sociais

Um pensamento romântico acabou enclausurado nas bolhas sociais.

Com as limitações impostas pelas diversas administrações governamentais ao redor do mundo por causa da pandemia, uma ideia, a princípio, percorreu a imaginação de muitos: a humanidade, se souber aproveitar a parada que o mundo deu, sairá desse infortúnio muito melhor do que era. Mas ao invés disso, mais bolhas sociais foram criadas.

Romântico e ingênuo pensamento ganhou as varandas pelo mundo todo, com recitais de música; que não eram dos grupos de risco gentilmente ajudavam aqueles que precisavam se preservar, mensagens e mais mensagens eram postadas nas redes sociais mostrando engajamento e consciência.

Parecia realmente que o mundo estava preparado para uma transição para uma modo de vida novo e mais consciente.

O front de batalha das bolhas sociais na era digital.

Como em toda pandemia, temos em seu início um ritmo lento de contaminações que, ao longo do tempo, aumentam até chegarem a um ápice. Então, lá permanecem um pouco para depois refluírem, até o quase desaparecimento do vírus.

Pressões econômicas e políticas começaram também a crescer como uma pandemia, inflamando ainda mais uma sociedade que já há algum tempo vive um estado inflamado pela infecção do extremismo radical que polariza as emoções e cria conflitos.

No Brasil, dados de uma pesquisa realizada em 2019 revelaram que 66% da população estava nas redes sociais, o que, na época, representava cerca de 140 milhões de pessoas. Essa pesquisa também apontou que os brasileiros ficam 3 horas e 31 minutos, em média, nas redes sociais.

Mas as redes sociais, cada dia mais, se transformam em um front de batalha onde os grupos polarizados defendem pontos de vistas, mais como uma defesa dos agrupamentos a que pertencem do que pelas ideias ou conceitos.

Vivemos tempos de grande intolerância e culto personalista ao próprio eu, representado pelas ideias que cada um julga como as mais verdadeiras.

Testemunhando dia após dia esses conflitos, despertou-me hoje a feliz lembrança de uma crônica de Rubem Alves¹, no livro “Ostra feliz não faz pérola” que de forma sincera e suave ensina uma postura que ajudaria muito a abrandar as inflamadas emoções de nosso tempo.

Sobre o ouvir.

O ato de ouvir exige humildade de quem ouve. E a humildade está nisso: saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos.

Mas isso, admitir que o outro vê coisas que nós não vemos, implica reconhecer que somos meio cegos… Vemos pouco, vemos torto, vemos errado.

Muita gente não se interessa pelo universo do outro, o interlocutor está ali como mais um espectador para a performance do ego, e ao não reconhecer que se é um pouco cego não percebe que está mergulhado na escuridão.

Você pode ler também: O exibicionismo nas redes sociais

Sobre o ver.

Bernardo Soares² diz que aquilo que vemos é aquilo que somos. Assim, para sair do círculo fechado de nós mesmos, em que só vemos nosso próprio rosto refletido nas coisas, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos.

Não somos o umbigo do mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do mundo! Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parêntesis, ainda que provisoriamente, as nossas opiniões.

O “ver o mundo”, nosso olhar para a realidade, é mais uma projeção que se acostumou com os nossos gostos e pendores, daquilo que para nós é belo. Imagens, conceitos, ideias que não sejam espelhos criam bolhas que afastam e prejudicam o entendimento que leva à compreensão.

Sobre opiniões.

Minhas opiniões! É claro que eu acredito que as minhas opiniões são a expressão da verdade. Se eu não acreditasse na verdade daquilo que penso, trocaria meus pensamentos por outros. E se falo é para fazer com que aquele que me ouve acredite em mim, troque os seus pensamentos pelos meus.

É norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. Mas esse silêncio não é verdadeiro. É apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu, então, diga a verdade.

A verdade, essa ninguém consegue esconder por muito tempo. Pobre daquele que se encasula em esfarrapados retalhos de ilusões, pois ao não considerar ouvir aquilo que é diferente, jamais terá uma visão completa. A verdade não tem só dois lados.

A prova disto está no seguinte: se levo a sério o que o outro está dizendo, que é diferente do que penso, depois de terminada a sua fala eu ficaria em silêncio, para ruminar aquilo que ele disse, que me é estranho.

Mas isso jamais acontece. A resposta vem sempre rápida e imediata. A resposta rápida quer dizer: “Não preciso ouvi-lo. Basta que eu me ouça a mim mesmo. Não vou perder tempo ruminando o que você disse. Aquilo que você disse não é o que eu diria, portanto está errado…”.

Que tal, então, começar a ver as manifestações contrárias às nossas com tolerância, ouvir a visão do outro, para assim clarear o nosso olhar e melhor assistirmos à beleza da vida sem a interferência dos grupos ou das bolhas sociais?

José Batista de Carvalho

Referências

1 – Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”, Editora Planeta.

2 – Bernardo Soares é um tipo particular dentre os heterônimos do poeta e escritor português Fernando Pessoa. É o autor do Livro do Desassossego, escrito em forma de fragmentos.

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