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Coronavírus e a negação da realidade

rosto de homem tapando os olhos com suas mãos simbolizando a negação da realidade

A defesa do ego para não se confrontar com a realidade.

Em um fim de tarde destes, estava refletindo sobre a negação da realidade, que é um dos mecanismos de defesa do ego.

Segundo Freud, “o conteúdo de uma imagem ou pensamento reprimido pode abrir-se à consciência, sob a condição de ser negado. A negação é uma maneira de perceber o reprimido.”

São muitos os mistérios do inconsciente e suas estratégias, que visam sustentar o nosso equilíbrio. Um desses mecanismos é a negação, isto é, uma vontade irrefreável de não querer saber ou não admitir algo.

A negação constitui-se, assim, em deslegitimar situações de realidade ou informações desagradáveis que as pessoas não queiram admitir ou concordar.

Esse sistema inconsciente, no curto prazo, pode estabelecer uma calma e estabilidade, mas com o passar do tempo as complicações aparecem.

Esta postura não é satisfatória, pois impossibilita a formação de maneiras adequadas de encarar a realidade.

Podemos, certamente, entender que exista negação em momentos de intenso trauma, como esse que o coronavírus está disseminando.

Mas como fazer para que essas pessoas que estão em negação entendam a difícil realidade que se está vivendo?

Com esses conceitos transitando na mente, fui surpreendido por um evento sincronístico. Não vou agora discorrer sobre esse conceito do bom Carl Jung, mas deixarei abaixo uma breve explicação sobre as coincidências que não são inocentes coincidências.¹

A negação da realidade, numa análise de Cortella.

Assistindo a uma entrevista do professor Cortella na CNN² sobre o mundo pós-pandemia, em determinado instante ele começa a falar sobre a negação.

“… eu não me refiro só a essa parcela da sociedade que tem militado ativamente pelo fim da quarentena ou pela não aceitação da quarentena, mas especialmente às pessoas que ainda têm muitas dúvidas ou se recusam a entender a gravidade do momento.

Porque os números, aparentemente, já não são mais capazes de trazer essas pessoas para o centro da questão. Então elas começam a dizer: ‘Mas como é que eu vou confiar nesse número, como é que eu vou confiar nesse laudo, tem gente questionando atestado de óbito.’

Há uma conduta muito infantil que é fingir que algo não está acontecendo, supondo que, ao fingir, aquilo não acontecerá.

Dou um exemplo muito antigo, qualquer  um de nós já viveu isso: não adianta você fechar os olhos para imaginar que está invisível, não adianta você fechar os olhos para que as coisas desapareçam à sua volta.

A negação, em grande medida, quando ela colide com a realidade, é uma atitude infantil. Ela é uma ausência de maturidade. Claro que acreditar em dados e fatos é algo que exige toda uma elaboração um pouco mais sofisticada.”

Explicando melhor.

O professor Cortella continua: “Eu dou um exemplo real dentro disso também. Há pessoas que todos os dias, ao sair de casa, elas acompanham em qualquer fonte da mídia qual é o seu horóscopo. Pessoas que têm a crença na astrologia. Elas acompanham o seu horóscopo e aquilo que ele anuncia ou oferece como possibilidade.

Essa mesma pessoa, no entanto, nem sempre tem credibilidade em relação à previsão do tempo. Na meteorologia, ela acha que não tem tanta base, mas na astrologia ela encontra isso.

Ora, são dois modos de olhar e lidar com a realidade. O que é que tem mais validade científica até o momento: a astrologia ou a meteorologia? Claro que a meteorologia, mas a astrologia já foi dominante em outros tempos.

Aí se diria: então, vale qualquer coisa. Claro que não naquilo que nós temos hoje como comprovação.”

A diferença entre fatos reais e opiniões.

“Os dados mostram que nós estamos numa situação absolutamente perigosa e terrível e, portanto, a necessidade de afastamento do convívio é uma questão de salvaguarda, não é um problema de mera opinião.”, salienta o professor, que continua:

“Uma das coisas mais complexas é convencer alguém que aquela rota que ela segue não está correta. É quando a pessoa nega qualquer outra possibilidade. É difícil fazer esse convencimento.

Quase sempre o convencimento de alguém que está em estado de negação se dá do pior modo, isto é, quando está à volta dela, quando aquilo acontece no seu entorno, quando ela mesma é atingida por algo que até há pouco dizia que não teria possibilidade (de acontecer).

Temos visto com frequência pessoas em vários lugares que até algum tempo desprezavam, desqualificavam a pandemia e que depois, ao serem pelo vírus possuídas, ao serem contaminadas, passaram a dizer: ‘É, eu me arrependo, eu exagerei, eu não tenho mais aquela percepção.’

A negação é vencida pela realidade.

Cortella diz ainda mais: “Uma das coisas mais fortes que a gente precisa pensar é que a negação nem sempre ela é negativa, isto é, usando uma redundância proposital. A negação também tem uma positividade quando a intenção dela é desmontar aquilo que não tenha tanta sustentação.

Mas hoje, temos os dados à nossa volta e os casos – porque nos primeiros momentos da pandemia a gente não tinha notícia de tanta gente conhecida. Pouco a pouco as pessoas com algum tipo de passagem pelo contágio vão chegando perto de nós. Não é que você ouviu falar de alguém em algum lugar. É já um conhecido, é alguém próximo, da família, alguém que, no nosso circuito, está numa situação que eu poderei também estar.

Concluindo, a negação é uma das maneiras de tentar escapar da realidade em vez de enfrentá-la, é buscar driblar, evitar,  sair por outro lado. A negação tem uma grande consequência: ela é ineficaz, ela não funciona ela é uma mera simulação, ela é um mero fingimento.

Por isso, a única maneira, infelizmente, quando alguém não se convence, é que ela será vencida pela realidade.”

A negação da realidade pode pôr em risco a coletividade.

Em conclusão, o professor Cortella aborda outra questão: “Quanto a comunidade, no caso representada por um poder público nos locais onde vivemos, tem autoridade legal para fazer com que aquela pessoa que não está convencida que, ao menos, convencida ou não, ela obedeça a uma ordem coletiva sanitária.

Temos as pessoas que dizem:

– Eu dirijo depois de ter bebido porque o sei o que eu faço.
– Não, a legislação hoje diz que não pode dirigir um carro após a ingestão de bebida alcoólica a partir de determinado percentual.

– Ah, mas eu sou livre.
– Não, você é livre até o ponto que você não ameace o conjunto da comunidade, da coletividade que está à sua volta.

A negação é uma das formas de vivenciar uma situação traumática, mas ela é a que tem a menor eficácia.”

Mario Sergio Cortella

Referências

  1. Sincronicidade é um conceito desenvolvido por Carl Gustav Jung para definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado. Desta forma, é necessário que consideremos os eventos sincronísticos não relacionados com o princípio da causalidade, mas por terem um significado igual ou semelhante. A sincronicidade é também referida por Jung de “coincidência significativa”. – Wikipedia

** Você pode ler mais em “Sincronicidade e as 4 Leis da Espiritualidade ensinadas na Índia

2. O Mundo Pós-Pandemia: Traumas e Superação – Programa de entrevistas com o filósofo e doutor em Educação Mario Sergio Cortella, entrevistado pelas jornalistas Mari Palma e Thais Herédia e pela comentarista Gabriela Prioli. O comando do programa foi de Daniela Lima e a exibição inédita ocorreu em 02 de maio de 2020, na CNN Brasil.

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