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Cuidadores familiares: a difícil vida durante a pandemia

mulher com máscara cirúrgica mostrando algo em um telefone celular para uma senhora idosa cuidadores familiares

A pressão sofrida pelos cuidadores familiares.

A pandemia do coronavírus está afetando as pessoas de formas diferentes. Mas os profissionais da área de saúde são unânimes em afirmar que, de todo modo, a saúde emocional acaba sofrendo seriamente. Um grupo de pessoas que pode sentir com maior intensidade a pressão dos ajustes que precisam ser cumpridos nesta nova realidade é dos cuidadores familiares.

A Universidade Stanford publicou um artigo(1) de Patricia Hannon sobre o assunto, em 20/07. Nele, Amy Yotopoulos, gerente de programa do Stanford Caregiver Center – o centro de atendimento a cuidadores da Stanford – confessa que “passou grande parte de sua carreira defendendo adultos vulneráveis. Mas isso não a preparou para a realidade de cuidar de alguém de sua própria família enquanto ela e seu marido continuavam trabalhando e criando seus filhos.”

Num webinar recente sobre cuidados durante a pandemia da covid-19, ela afirma que “depois de anos dizendo a todos como ser um melhor cuidador e cuidar de adultos mais velhos, eu percebi o quanto eu era arrogante. Para ser sincera, mesmo com meus conhecimentos e habilidades, a experiência pessoal de cuidar me deixou de joelhos.”

Charisse Lee é cofundadora do centro no novo Stanford Hospital, ao lado de Yotopoulos. Ela também cuida de um ente querido enquanto cria seus três filhos. E disse que “cerca de 53 milhões de americanos prestam cuidados não remunerados a um adulto com necessidades funcionais ou de saúde. Cuidar é se isolar e isso pode ser muito, muito estressante”.

O estresse pode surgir quando se cuida de familiares adoentados.

Cuidar de familiares adoentados é algo que pode durar semanas ou anos, dependendo das circunstâncias. Pode se tratar da recuperação de uma cirurgia ou cuidar de alguém com limitações temporárias ou permanentes, que requerem atenção especial.

“Pode ser avassalador, principalmente durante a pandemia, quando o medo da infecção limita a ajuda em casa e as opções de creche”, disse Lee.

De acordo com a Universidade Stanford, uma pesquisa(2) foi realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade do Missouri em 2017 com 395 cuidadores. Descobriu-se que 23% deles experimentavam depressão moderada ou grave e um terço sofria de ansiedade moderada ou grave, fatos constatados principalmente em cuidadores mais jovens.

“Embora se espere alguma tristeza e preocupação como componentes do cuidado de um membro da família ou ente querido moribundo, a depressão e a ansiedade não devem ocorrer”, disse Debra Parker-Oliver, PhD, professora de medicina familiar e comunitária na Universidade do Missouri.

“Temos uma população que está sob imenso estresse e não está sendo reconhecida. Ferramentas básicas de avaliação devem ser usadas para ajudar a aumentar a probabilidade de detecção precoce e tratamento de depressão e ansiedade em cuidadores familiares”, afirma ela.

A pandemia do coronavírus aumentou ou casos de ansiedade.

Os meses no sofá, a compulsão alimentar, o álcool e a falta de atividade física estão afetando a saúde mental da população, diz artigo(3) da Universidade Oxford do dia 27/07, referindo-se ao longo período de distanciamento social em vigor na Inglaterra, assim como em vários outros países.

Stanley Ulijaszek é diretor da Unidade de Variação e Obesidade Biocultural (UBVO), instituição que se dedica a entender as causas da obesidade em todo o mundo.

Ele afirma: “O bloqueio da covid-19 resultou em aumento dos níveis de ansiedade, sono ruim, tristeza persistente, compulsão alimentar, pensamentos suicidas, consumo de álcool e níveis reduzidos de atividade física. Essas mudanças têm possíveis consequências a longo prazo para as taxas de obesidade e doenças crônicas de maneira mais ampla”.

A orientação para pedir ajuda, aliviando as responsabilidades.

Yotopoulos e Lee, com base em suas experiências profissionais e pessoais, sugerem alguns conselhos aos cuidadores familiares. Elas reconhecem que pedir ajuda pode ser uma das coisas mais difíceis para o cuidador. Mas orientam a dar atenção ao que é mais importante e aceitar uma assistência com outras atividades.

Lee aconselha falar com familiares ou amigos que possam, por exemplo, ajudar com as refeições ou cuidar das crianças. “Você ficará agradavelmente surpreso, como eu, com a forma como as pessoas estão muito dispostas a ajudar. Especialmente agora, em um momento em que as pessoas realmente sentem a necessidade de se conectar com os outros”, disse ela.

Além disso, elas recomendam estreitar a conexão com os profissionais de saúde, que entendem a sobrecarga e “o coração partido na dinâmica da mudança de relacionamento com os entes queridos que lutam com a perda de independência e mobilidade.”

Um dos conselhos é “abraçar a imperfeição.”

Yotopoulos sugere que “os cuidadores tentem ‘abraçar a imperfeição’, diminuindo as expectativas sobre o que é normal num dia.”

É preciso ter em mente que não é normal trabalhar bem em casa enquanto cria filhos, ajudando-os com a educação escolar on-line, cuidando de todas as medidas de proteção e além disso ser o principal cuidador de um ente querido, deficiente ou idoso, disse ela.

“Estamos falando sobre qualidade de vida, sobre o que eles precisam e querem”, disse Yotopoulos. “Eles não vão poder ter tudo o que querem agora. Mas você pode fazer uma lista de algumas pequenas coisas que podem tornar o dia do seu ente querido mais agradável. Como pedir, por exemplo, que um vizinho pegue seu sorvete favorito.”

Os cuidadores familiares também precisam de cuidados.

Mesmo contando com a ajuda de outras pessoas e aceitando a imperfeição, os cuidadores ainda podem enfrentar aquilo que Yotopoulos chamou de “uma montanha de incerteza, estresse e solidão”.

As pessoas que cuidam dos outros tendem a esquecer de si mesmas e não pensar em suas próprias necessidades. Mas ela e Lee incentivam os cuidadores a encontrar atividades que os motivem e renovem as energias, como “meditar, rezar, escrever um diário, cochilar, passear com um amigo, agendando um tempo sacrossanto para isso.

“São algumas pequenas pequenas coisas”, disse Lee. “Não estou dizendo que é fácil, mas você precisa respirar.”

A atenção plena é eficaz para melhorar a qualidade de vida.

Depressão e distúrbios no sono frequentemente afetam as pessoas com problemas de saúde bem como os seus cuidadores, afirma Ken Paller, PhD, Diretor do Programa de Neurociência Cognitiva e Alzheimer, da Escola de Medicina da Universidade Northwestern.

De acordo com um estudo(4) comandado por ele, tanto cuidadores como pacientes que praticam a atenção plena experimentam uma melhora no humor e no sono. Desta forma, diminuem-se os índices de ansiedade e depressão, melhorando a qualidade de vida.

“A atenção plena envolve a consciência e aceitação dos eventos do momento presente. Você não precisa se sentir obrigado a desejar que as coisas sejam diferentes. A atenção plena aproveita as habilidades das pessoas, em vez de se concentrar nas dificuldades.

Desenvolver a atenção plena consiste em aprender hábitos diferentes e uma pessoa precisa praticar um novo hábito para que ele permaneça.”, observou Paller.

Toda mudança de hábitos precisa de empenho e determinação, mas certamente o benefício no bem-estar e na qualidade de vida são motivadores para vencer as dificuldades iniciais.

Noemi C. Carvalho

Referências

Texto escrito com base nas seguintes referências:
1 – Mensagem para os cuidadores familiares: há ajuda, mesmo durante a covid-19 – Universidade Stanford
2 – Cuidadores experimentam altas taxas de ansiedade, depressão, segundo estudo – Universidade Stanford
3 – Três meses no sofá? Compulsão alimentar, álcool e falta de exercício afetam a saúde mental da Inglaterra em confinamento – Universidade Oxford
4 – Nova estratégia de enfrentamento para os deficientes em memória e seus cuidadores
Universidade Northwestern

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