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Eu te amo porque te amo

O amor é uma poesia que traz encanto à vida

De olhos fechados, vem-me à mente lembranças de um poema ouvido. Distante no tempo, embora tão próximo em sentimento, talvez porque não faça questão de dar uma razão para o sentir, mas apenas deixar fluir elaboradas palavras para que, em nosso ser, pronunciem o mais belo sentir.

Não é preciso ter motivos ou explicações para o amor: ama-se porque se ama, não por uma busca que pretende encantar ou uma espera que sonha. Ama-se mesmo sem ter consciência de um papel na trama, apenas pelo deleite do personagem que corre pelo palco com uma rosa na mão, porque uma rosa é uma rosa.

Mais do que uma ilusão que desvanece, de um sentimento sem sentido, nos traz a direção da graça que encanta o viver e a vida, dando relevância às menores gentilezas, transformando o cotidiano em festa pura. Não começa e não termina, existe puro e casto em cada um de todos nós.

Muitas vezes esquecido ou sepultado por antigos desassossegos, é maior que a própria natureza, pois a natureza é ele, pujante como a água que cai na cachoeira, como o vento que suas sementes espalha, ou mesmo no eclipse que esconde a enamorada lua. Não se explica ou se regula, existe, abundante e servido a todos.

Com ele nos encontramos e bailamos, e nesta dança preenchemos nosso existencial vazio. E onde só trevas existiam, volta a luz a brilhar e a mostrar a parte sofrida e esquecida, trazida à tona para integrar a totalidade do ser. Encantamo-nos e neste encantamento vemos a felicidade, também esquecida e perdida lá no fundo, e com o amor nos amamos e nos descobrimos, plenos, completos: somos a própria felicidade, o viver, somos a vida.

E da poesia que nos traz esse sentimento, percebemos a mão do poeta em nós remexendo o intocado, fazendo o nosso interior fremir, se agitar e querer gritar, pois por muito tempo  controlou o descontrole e agora, como num ato final, se entrega à verdadeira expressão, trazendo o entendimento que nada falta em nós, apenas nos enganamos em lá fora procurar o que aqui dentro escondemos.

No viver de nossos dias nos entregamos à vida com mais força e sentido, amando por amar, pois assim é o amor: não precisa de retribuição, quanto mais damos mais recebemos e nos encantamos.

Obrigado poeta, obrigado Drummond.

 

José Batista de Carvalho

 

As Sem Razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘O Corpo’

 


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