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O exibicionismo nas redes sociais

Mulher olhando a selfie e comparando com ela mesma, por causa do exibicionismo nas redes sociais

A fascinação por mostrar o que queremos parecer gera o exibicionismo nas redes sociais.

A sociedade passou por várias transformações nas últimas décadas. As relações sociais, enquanto isso, foram fortemente influenciadas pela necessidade que foi sendo criada de aparentar a forma como queremos que os outros nos vejam. O exibicionismo nas redes sociais, então, se transformou num ágil instrumento para atingir esse objetivo.

Valores foram substituídos, prioridades foram trocadas. Mas será que foi uma mudança válida, do ponto de vista de evolução e aprimoramento do ser humano, se considerarmos o que foi deixado para trás?

Flávio Gikovate foi médico-psiquiatra, psicoterapeuta, conferencista e escritor. Publicou, enquanto isso, 34 livros, foi apresentador de programa de rádio e de televisão. Ele dizia que escrevia porque era uma forma de levar conhecimento para ajudar as pessoas a entrarem num ciclo de evolução. E fazia isso como resultado de anos de estudos e experiência em milhares de atendimentos clínicos.

No texto que reproduzimos abaixo, Gikovate faz uma análise sobre as mudanças ocorridas no que diz respeito a valores culturais e sociais. Acompanhe as interessantes ponderações que ele faz sobre essas transformações. Percorrendo a história, portanto, ele chega ao nosso moderno mundo das relações digitais, onde se verifica o exibicionismo nas redes sociais.


Ser, Ter, Parecer, Aparecer.

“Em 1976, Erich Fromm publicou um livro cujo título, “Ter ou Ser”, indicava que estava em curso uma mudança fundamental. As alterações nos valores culturais acompanham, em geral com certo atraso, as que acontecem no plano dos avanços da tecnologia – especialmente quando eles estão diretamente ligados ao cotidiano da maioria dos cidadãos.

Nosso “habitat” vem mudando drasticamente principalmente a partir da II Grande Guerra. Nós, humanos, interferimos continuadamente sobre o ambiente que nos cerca; depois, então, temos que nos adaptar às mudanças que nós mesmos provocamos. Por vezes, levamos um susto com o que nos acontece, como se não fôssemos nós os causadores de tudo!

A mudança de “ser” para “ter”.

Até os anos 1960, os valores que as pessoas mais prezavam eram a integridade moral, o conhecimento, as boas e sólidas relações de amizade, a competência para o exercício de uma atividade socialmente útil. Em uma frase, portanto, os valores mais relevantes tinham a ver com o conteúdo das pessoas mais do que com a aparência delas.

O indivíduo se orgulhava de ser professor, médico, empresário… Era o tempo em que o “ser” valia mais que tudo, mais do que a remuneração que se obtinha em decorrência da atividade que se exercia.

A partir dos anos 1970, os critérios de valor começaram a se alterar. E, então, o pêndulo se voltou essencialmente na direção do que se consegue “ter”. Ou seja, o que mais se passou a valorizar foi o montante que se ganha e quais os bens que podem ser adquiridos com esse dinheiro.

As marcas de grife ganharam fama enorme e como resultado se tornaram cada vez mais conhecidas de todos. A maior parte das pessoas, assim, passou a desejá-las com vigor: o uso de uma determinada bolsa e de certas marcas de relógio passou a indicar a importância e a posição social de quem os possui. Tornaram-se fonte de respeitabilidade.

A remuneração que se obtém passou a ser mais importante do que as aptidões necessárias para o exercício de uma dada atividade. Ser rico tornou-se muito mais relevante do que ser culto, produtivo ou mesmo honesto.

É claro que foram muitos os que conseguiram unir todas as propriedades e enriqueceram em decorrência do exercício de atividades produtivas que exigem sofisticação intelectual e mesmo integridade moral. Passaram, entretanto, a chamar a atenção e atrair a admiração mais pelo que tinham do que por aquilo que eram.

A mudança de “ter” para “parecer”.

Numa época em que ser o possuidor de um dado modelo de relógio (ou de bolsa, para citar apenas os símbolos mais expressivos das mudanças nos valores que temos acompanhado) significava ter uma determinada posição econômica, os concorrentes menos valorizados começaram a produzir exemplares que imitavam as propriedades do original.

Os que não podiam comprar o relógio mais cobiçado não tinham alternativa senão se contentar com as imitações que, à distância, não eram tão facilmente diferenciadas. Assim, entramos numa nova era, na qual o importante é “parecer” que se possui a riqueza necessária para a posse dos bens materiais agora valorizados acima de tudo.

Depois dos relógios mais em conta e que imitavam os mais desejados vieram os falsificados, cópias baratas e de má qualidade. Mas ainda assim usados por um bom número de pessoas e que foram capazes de enganar a um bom número de pessoas mais desavisadas. De repente, não importa mais nem ser e nem mesmo ter: apenas parecer!

A mudança de “parecer” para “aparecer” – característica do exibicionismo nas redes sociais.

Na última década fomos introduzidos, via internet, às redes sociais, ao universo novo dos contatos virtuais. Se, na fase em que o ter passou a prevalecer sobre o ser, pudemos observar um enorme crescimento do exibicionismo físico (na “era” do ser também havia certo exibicionismo intelectual, porém mais sutil e discreto), agora as pessoas passaram a querer mais que tudo “aparecer”.

Elas postam fotos suas nas mais diversas situações, todas elas encantadoras e dignas de provocar a inveja de seus “amigos”, que “curtem” o que veem com toda a hipocrisia própria dos que se empenham em disfarçar seus reais sentimentos.

Temos caminhado cada vez mais na direção da superficialidade, saindo do “miolo” para a “casca”. Agora a ocupação principal de muita gente é a de exibir uma imagem encantadora de si mesma, sendo que a veracidade daquilo que se exibe interessa cada vez menos.

O importante é provocar suspiros de admiração nos interlocutores cada vez mais distantes e menos relevantes.”

Flávio Gikovate

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