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Sua angústia é fruto do amor que você não vive

Mãos de homem e de mulher, cada uma num canto segurando um celular e no meio um coração partido

Os relacionamentos na era da modernidade líquida.

Vivemos em uma era incomum. Mesmo mergulhados na multidão cibernética estamos sós, isolados inclusive de nós mesmos. Isso gera a angústia, que muitas vezes é fruto do amor que você não vive.

Conforme as observações do filósofo Zygmunt Bauman, vivemos na era líquida. As coisas agora são transitórias, efêmeras, o fluir das nossas vontades se alternam como as marés, a cada instante imprimindo novas velocidades e direções.

Parece que tudo escorre pelas nossas mãos. Uma época líquida onde coisa nenhuma é perene.

Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório.

O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade. Reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, e o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.”

Vivemos a instantaneidade das amizades.

Nossas relações, de fato, parecem se desestruturar ao caminhar para a superficialidade. E as possibilidades de equilíbrio e paz se esvaem. Pois apenas nos entregamos aos diálogos rasos e inconsequentes, que não possibilitam o crescimento mútuo.

Virtualizamos as amizades e, neste asséptico ambiente, as conversas são alheias. Eliminamos as interações mais profundas que se poderiam produzir ao impossibilitar o contato físico. Os abraços e os gestos muitas vezes pontuavam com maior riqueza os nossos relacionamentos.

“Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio.

As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.”

Podemos até mascarar as tristezas, mas a angústia permanece.

Nesta era onde tudo é publicado e exposto, abre-se mão do âmbito pessoal e privado para satisfazer vaidosos anseios. Assim, mostra-se a todos os lugares que se frequenta, o que se consome e se come, o que traz felicidade, as preocupações e os desejos.

“Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição.”

A criação desse contexto não se deve à tecnologia ou aos agentes que ela criou. É fruto da interação do ser humano guiada por suas fraquezas e por seus vícios.

A tecnologia possibilita, é verdade, os meios para que inúmeras coisas, antes impossíveis, possam se tornar realidade. E assim contribui para o desenvolvimento e para a conscientização das pessoas.

Mas a atávica angústia do ser frente sua finitude detectou, nos instrumentos proporcionados pelos avanços tecnológicos, um amplo espaço para mascarar a tristeza. E onde ele pode, então, dar vazão às fantasias que maquiam a realidade.

“A angústia é a disposição fundamental que nos coloca perante o nada.” – Martin Heidegger

Vivemos em solidão, em meio à multidão.

Como uma fina ironia, a utilização, principalmente das redes sociais, como um instrumento para afastar a angústia, trouxe uma consequência maior. É a inquietação para os sentidos e a asfixia para a alma.

Pois o seu caráter é efêmero, onde o tempo logo abafa as postagens, onde pode-se deletar carinhos e afagos num instantâneo clique. E até mesmo bloquear e desfazer longínquas amizades num apertar de botão.

Vivemos um tempo, conforme Zygmunt Bauman descreve, em que “Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”. E então, neste deserto de emoções, “o amor é mais falado do que vivido.”

José Batista de Carvalho

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